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Rio

  • Foto do escritor: tâmia
    tâmia
  • 20 de out. de 2025
  • 2 min de leitura

Chamam de insanidade quando o rio flui rumo a novos caminhos, exausto, à procura de sinais

Não é natural quando ele te alcança e te rodeia no sentido contrário, criando os caminhos infinitos do seu corpo 

E você sorri, finalmente


Passados os anos e os percalços, num canto apertado ouvi prantos enclausurados 

Uma lembrança borrada, dada como extinta Vasculhou a alma em busca de mais uma tentação

Era sua presença anciã 


Eu soltei tua mão no dia em que o rio corria em 

outra direção 

Encarcerada no suplício de uma jornada em que eu nunca alcançava a liberdade de um dia ensolarado 

Era você, saudade, que abraçava o abismo amargurado em um nó indomado de minha solidão


Era ele o inferno que me aguardava no chão gélido da capela em que no altar me despia do desespero de um regresso

Ao rio que descansava no seu leito


De joelhos, rezo. Não sou religiosa.

Em pé, finco o eco do grito no teto sem estrelas da Sua casa

Em passos lentos sigo pelo caminho tortuoso que me conduz através da escuridão 


Comprimo contra o peito o lamento em madeira que veio das Suas mãos 

Serventia de uma dor, era a face dele

A minha em consternação 


Um terço do rio em mim dividido 

Grito livre, sem saída 

Eu olhei para o meu avesso

As nuvens pesavam

Na aurora de uma direção  

O lamento se desfaz poeira e volta as estrelas 

Iluminando a escuridão 


No rio que emerge, parado e esperando apenas a mim

Ele não pode seguir seu curso se eu mesma não me puser em movimento

Vem quando eu chamar

E estia a chuva que me transborda.

 
 
 

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